Hoje quero fazer um convite para que possamos refletir sobre uma questão essencial e, para muitos, simples, mas que credito toda a complexidade e importância: o que é ensinar?

Você já se perguntou, afetivamente, o que é ensinar? Tente desligar um pouco, por um instante, o seu “buscador interno”, o seu “Google mental” e evite jogar essa pergunta lá na sua barra de pesquisa. Tente puxar essa resposta pela paixão. O que lhe vem à mente quando você pensa na palavra ensinar?

No meu arquivo afetivo, aparecem muitas imagens, como minha tia, lá no Interior das Minas Gerais, tentando controlar o ímpeto das crianças que gritavam sem parar, com uma varinha nas mãos. Ela tinha na agenda do dia diversas matérias para passar e tudo isso gerenciando recursos precários, com duas séries viradas para um lado da salinha, onde havia um quadro negro velho e outras duas séries viradas para o outro lado, onde também havia um pequeno quadro negro velho. Isso tudo ao mesmo tempo. Você consegue imaginar essa cena? 1ª, 2ª, 3ª e 4ª séries do antigo primário numa mesma sala, ao mesmo tempo? Ela aconteceu de fato. E não há como eu fugir de achar que, apesar da precariedade estrutural e do método de ensino já defasado, a intenção da minha tia era sim de ensinar.

Você deve estar agora questionando exatamente o modelo de ensino que ela aplicava. Era aquele modelo tradicional de repasse de conteúdos. Era a matemática básica do 2 + 2, o português mais rudimentar, o básico do básico mesmo. Porém, naquela seara da falta de tudo, isso era muito. Era o que chegava naquelas paragens e aproveitava aquele mínimo quem conseguia, quem podia, que entendia a necessidade. Eu posso dizer que pude aproveitar minimamente o “ensinar” da minha tia.

E agora? Já se formou na sua mente uma imagem, uma possível resposta para a nossa primeira pergunta? Com o passar dos tempos, especialmente nas duas últimas décadas, muita coisa tem mudado nos sistemas de educação. Muitas teorias da aprendizagem vem sendo democratizadas e aplicadas nas escolas, na educação corporativa também, enfim, um movimento, mesmo que ainda tímido diante das necessidades, vem acontecendo. O que é difícil é sistematizar a aprendizagem, criar estruturas condizentes com as demandas.

Passado muito tempo e muita água embaixo da ponte, consigo, hoje, entender que existe um universo de possibilidades muito além daquela minha experiência de aprendizagem básica de criança. Acredito que o centro de tudo é a aprendizagem e não mais as figuras dos atores. Não estou dizendo que o professor não é importante ou que o aluno seja coadjuvante. A aprendizagem é um processo de construção e compartilhamento e que precisa acontecer da forma mais rica possível, criando situações de protagonismo para todos os envolvidos. Com tanta informação nessa era tecnológica, é difícil engajar as pessoas e ativar as alavancas da criatividade humana de forma mais direcionada. Como bem disse Vygotsky, quanto mais rica a experiência da aprendizagem, maior será o material disponível para a imaginação e a criatividade. O desafio grande hoje dos educadores, seja na escola, na empresa, na comunidade ou onde for, é o engajamento das pessoas em propostas educacionais o mais diversificadas possíveis.

Você já deve ter ouvido a expressão “ensinar é aprender”. Você já se questionou até onde isso ajuda e atrapalha o processo da aprendizagem? Eu acredito fortemente que enquanto se ensina, se aprende também. Essa troca é fundamental, mas o que me preocupa nesse processo é reforçar, mais uma vez, o foco no processo de emissão e recepção, contando com um feedback que pode nunca vir. Certa vez li uma matéria, que não tenho mais a referência, em que a entrevistada dizia que o objetivo final da educação é a aprendizagem e é a partir dela que se avalia o aluno, o professor e o sistema. Pensando por esse lado, o educador será exitoso quando conseguir que seus aprendedores consigam efetivamente processar os conhecimentos que ele compartilha e não necessariamente quando ele repassar um grande volume de conhecimentos.

E nessa perspectiva da aprendizagem como foco, entra aquela outra pergunta: Ensinar o que?

Cada realidade pede um diagnóstico, um planejamento. Porém, é certo que as necessidades estão mudando rapidamente. O que na minha época de criança era considerado mandatório, a tabuada, os verbos fundamentais, hoje pode até continuar sendo, mas a forma de levar esse conhecimento já não é mais a mesma e nem poderia ser. Numa empresa, por exemplo, há necessidades das mais básicas até as mais complexas e isso precisa ser considerado na hora de se criar um programa de educação corporativa que fuja da composição de grades de treinamento engessadas e passe a contemplar ações educacionais mais conectadas com a realidade.

Você já se questionou no seu trabalho diário se os conteúdos e conhecimentos que você contemplou no seu projeto de educação condizem com a realidade de demandas das pessoas com as quais você compartilha e ensina?

Piaget defende que o professor precisa encontrar maneiras das crianças descobrirem soluções para problemas propostos e isso faz com que a aprendizagem aconteça de forma mais natural e consistente. Pode ser mais uma pitada de tempero nessa nossa reflexão. Será que temos transformado nossos conteúdos em apostilas bem diagramadas apenas, treinamentos online bem animados e sem conexão ou estamos no caminho da construção coletiva dos conhecimentos, propondo formas desafiadoras, aplicadas e mais interessantes de trabalho?

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Até o próximo.

Ubirajara Neiva